V E R S Ã O . 2 . F A T . A N D . 2 . F U R I O U S
Setembro 10, 2006
Goldeneye
Ele tem olhos dourados. Não são castanhos, nem mel... São dourados mesmo. Raramente sorri. Eu não me importo já que me acompanha pelo bairro para que possamos fotografar tudo. Ele não interage muito, mas eu fico confortável em seu silêncio e na cadência dos nossos passos que vão lado a lado esmagando os pequenos cristais de areia das praças.
Começava a amanhecer dia desses, quando ele se voltou para mim e perguntou se eu poderia fotografá-lo em meio ao cenário simultaneamente bucólico e urbano. Eu disse que sim e aceitei a máquina que ele estendera a mim. Como a luz não era das mais cooperativas, lhe pedi que mudasse de posição, procurei ângulos e finalmente lhe perguntei onde estava o zoom de sua câmera. Ele coçou a cabeça e segurando a máquina de uma maneira pela qual eu não a soltasse, me guiou em sua direção. Eu observava seu rosto sério e concentrado enquanto o fazia.
- O zoom? Fica aqui... Chegue mais perto de mim... - ele dizia e me puxava contra ele ao mesmo tempo. Achei que se referia a um pequeno botão que encontrei tateando com o polegar embaixo da câmera. Perguntei se era esse para me certificar e ele, que estava muito perto, sorriu. Foi aí que eu entendi o que quis dizer quando falou:" chegue mais perto". Entre desconsertada e divertida, me afastei o chamando de bobo ou algum adjetivo semelhante e ele riu. Um riso espontâneo, sonoro, lindo. Fotografei os olhos dourados e o raro sorriso no amanhecer.
Quisera eu ter a foto.
Odeio quem odeia demais, eu incluída, mas por outro lado sinto que o ódio é só um sentimento que os covardes supervalorizam - igualzinho ao amor. Puá! Mas tem esses dias que gostaria de quebrar pescoços tão recheados de infinita escrotice e imbecilidades...
Não suporto gente feliz sem motivo: tá feliz? Sorria. Não tá? Chora, cacete! Coisa mais irritante essa doutrina Paulo-Coelho-Zélia-Gattai-auto-ajuda-de-merda-estou-sempre-bem-porque-o-que-eu-penso-acontece... Quanta pretensão!
Outra coisa que me irrita: Pretensão desmedida. Sim, porque quando é pouca eu posso debochar. Sinto, com pesar, que as pessoas tendem a demonstrar o mesmo comportamento novelístico e condenam aqueles poucos que ainda são originais. A vida é a vida (profuuuundo), não é péssima e nem perfeita. Apesar de em alguns momentos ser as duas coisas. Mas agora, aqueles que a julgam de um jeito ou outro todo o tempo têm problemas. Sérios.
Eu odeio um monte de coisas, pequenas coisas que ao se juntarem, viram essa lista quase infindável (eu disse quase). Eu odeio quem acha que Radiohead é música de fossa: Primeiro, a fossa não registrou trilha sonora. Segundo, música é uma questão de interpretação. Se você tem problemas sexuais com alguma banda, acho justo, razoável e decente guardar para si. E terceiro, convenhamos: só quem conhece Radiohead e outras bandas similares (Coldplay não é uma delas) sabe o trabalho musical, a capacidade criativa, experimental e inovadora da coisa. Afinal, os três acordes dos Ramones que eram legais na adolescência, já venceram o prazo de validade. Eu odeio quem não se reinventa, não ousa, não muda, não evolui e ainda acha bom.
Eu odeio quem chama personagem de novela pelo primeiro nome e odeio mais ainda não ter jornais abertos na primeira página nas bancas porque as revistas sobre novelas (chamando personagens pelo nome) estão ocupando o espaço.
Tenho asco a pessoas que gostam de enumerar conhecimentos para impressionar outrem. Sempre os da moda. Nunca vi alguém enumerar coisas fora do mainstream. E é justo essa repetição e incapacidade para livre interpretação que me irrita. Não é o que visto ou ouço que me define. Essa coisa de bom e mau é extremamente simplista. Achar que um ser humano se restringe a isso é realmente muito maniqueísmo.
Outro dia conheci meu Dopplegänger. Ele detesta tudo que eu detesto. Mas usa o termo: "Eu tenho raiva de..." Daí segue a lista idêntica a minha. Acaba que adoro encontrar alguém que sabe do que estou falando. Ou ainda melhor: Alguém menos plástico do que a maioria.
Oras, o ser humano é maravilhosamente dotado de emoções. Por que não usá-las? A busca pela banalidade de certas pessoas me assusta. E me confunde ao mesmo tempo que se entrelaça com a mediocridade. Triste e real. A burrice é quase tangível e impressionantemente infinita.
No fim das contas, quase compreendo. Não fosse a ignorância, como poderíamos sorrir?
Essa semana o Cera Quente fez três anos de existência. Então aqui vai o post tradicional de aniversário (ou a meia dúzia de palavras a respeito): Ainda que meio largado, meio tosco e modesto, o bloguezinho continua insistindo em estar presente. E se nenhuma qualidade a mais pode ser encontrada, convenhamos que a persistência é uma linda virtude.